Engolir

dezembro 29, 2024
4 mins de leitura

Não se escreve sobre a loucura. Não sobre a loucura real. Apenas sobre o apanhado de fantasias que pairam sobre uma ideia de loucura. Somos loucos quando destoamos da maioria, quando preferimos isto a aquilo. Quando temos manias especificas, dificuldades sociais. Se choramos muito ou choramos nada. Mulheres são mais loucas, normalmente quando não querem pertencer, obedecer, ceder, aceitar.

Mais da metade do planeta carrega alguma patologia, traumas se tornaram ago pra carregar em camisetas e não pra serem superados. É de alguma forma vantajoso ser desajustado. Bonitinho como uma saga adolescente.

De forma geral louco é todo aquele que vai em desacordo com aquilo que são as nossas próprias expectativas, um louco ou um inimigo velado que a gente precisa exterminar.

Mas a loucura não reside em nada disso, em adultos fingindo ser crianças desajustadas. Porque quando existe tanta gente com os mesmos comportamentos, as mesmas reações, os mesmos diagnósticos, as mesmas frases repetidas e tiradas de vídeos na internet — “eu sou assim porque isso”, “ eu existo assim porque aquilo” — quando um numero massivo de pessoas reproduz comportamento repetitivo, isso não é então o padrão? E a loucura não passa ser qualquer coisa lucida?

Eu penso na loucura, minha própria e em tudo que eu já ouvi sobre mim em tom de acusação, ameaça ou condenação sempre que eu saio de uma linha invisível, estabelecida por quem percebe muito rapidamente os botões que precisa apertar pra me transformar numa boneca de corda “Mimadinha é uma boneca que chora, que brinca que ri. Está ficando sapeca como eu nunca vi. É só por ela na cama que ela começa a chorar…” — algumas cantigas são maldições.

Loucura é se saber louco, é fingir de modo incontrolável, sem lógica, mas com aparente proposito, até pra quem diz haver espaço pra não precisar fingir. Isso também ma grande mentira, assim como quando dizem não haver expectativas ao mesmo tempo em que existe a revolta e a violência quando a pessoa não é atendida naquilo que inventou do outro.

Fazer algo explicitamente e negar estar fazendo configura loucura? Se sim, a pessoa se sabe louca?

Eu desapareço do mundo e da vida das pessoas ao menor sinal de descontrole, quando vou precisar responder bem mais que perguntar, quando não vou sustentar meu fingimento. Essas coisas que ninguém gosta de assistir nos outros, mas acredita que não faz também.

Mas minha loucura não esta quando eu quebro, caio no chão chorando pedindo silencio e vazio. Ah se soubessem. Minha loucura esta em sentir cheiro de ferro no cimento e desejar descontroladamente abrir um buraco na parede e comer um pouco do cinza dos dias. Abraçar me faz sentir o cheio de ferro no sangue das pessoas e eu poderia facilmente sangrar e beber de alguém que eu gosto muito. Eu achei explicação químico-biológica pra isso, uma fantástica deficiência de ferro que exige um autocontrole imenso. Mas outras tantas coisas tem explicações física, psicológica, biológicas , históricas e químicas e ainda assim são loucura vindo de quem vem. Porque isso também não seria?

Cem anos de solidão — Rebeca comia terra e arrancava finas fatias finas da cal das paredes para ingerir como bolachas — não me parece fantasia.

“A geofagia parece ser mais predominante entre africanos e seus descendentes. Um estudo do estado de Mississippi de 1942 concluiu que “pelo menos 25% das crianças em idade escolar habitualmente comeram terra. Adultos, embora não observados sistematicamente, também consumiram terra. Um número de razões foram dadas: a terra é boa para você; ajuda as mulheres grávidas; o gosto é bom; é azeda como um limão; o gosto é melhor se esfumaçado na chaminé; e assim por diante.” [1]
No sudeste dos Estados Unidos especialmente, a chamada “terra gostosa” (geralmente um pó de giz, ou pó cálcico, com algum sabor) é vendida em lojas locais ou enviada a amigos e à família que não vivem mais próximos a fonte desta terra ou pó.”

Achei a explicação para o cimento e o sangue, mas e os pedaços de vidro, cerâmica, pregos, alfinetes, fotos, papeis escritos com as frases que eu gostaria de dizer pras pessoas mas que não saíram de mim. Elas saem em minúsculos papeis coloridos, e eu as como de volta.

Saber que o corpo esta em colapso, e apenas assistir, configura loucura? Gostar de viver mas desejar intensamente não morrer mas apagar-se da memória alheia enquanto se torna invisível. Uma fantasia tão prazerosa que pode durar horas — seria a loucura?

Eu penso em estratégias para satisfazer o que eu desejo, e ele nunca esta em pessoas, companhia, coisas, lugares, conquistas. Normalmente minha mente esta em algo fixo e obsessivo do qual eu não posso falar pra ninguém pra não ativar o alerta vermelho anterior ao extermínio. Eu penso em produzir potes de cimento pra consumo ( e não, o cimento sem ser preparado e seco não tem o mesmo efeito). Penso em me alimentar só disso. Mesmo ciente de todos os prejuízos. É um veneno, mas o que colocamos na boca e não é?

Como não achar que existe um pouco de loucura nisso.

Eu me sinto mentalmente adoecida, e certa de que tem alguma coisa “errada” comigo, não me importa o titulo que a coisa tenha, me importa que não me traga tanto prejuízo. Não preciso de gente, talvez de uma pessoa apenas, minha psicologa, que ouviu por anos histórias de quem estava em volta de mim fazendo barulho fora da minha cabeça, mas quando a gente começou a falar sobre o que faz barulho do lado de dentro, o mundo desabou.

Eu preciso de nomes pras coisas, de explicações, dos porquês. Eu preciso saber. Será isso tudo enfim a loucura? E se não tem ninguém olhando, ninguém sabendo, ainda assim é loucura? Quão louco você seria se ousasse de verdade mostrar aquilo que você faz nas sombras? Se tem nome, explicação, e outros iguais a nós, ainda é loucura?

Esta começando a chover e eu preciso lidar com o cheiro do muro de concreto, com a terra molhada, com o vaso de barro, o mormaço do portão quente e manter tudo sob controle, tudo distante da minha loucura.

Maria Rita Casagrande

Escrevo para não enlouquecer, sobre coisas que já me enlouqueceram.

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Escrevo sobre a vida e coleciono pequenos fragmentos: livros, comidas, afetos, viagens internas e externas. Gosto de transformar obsessões passageiras em palavras permanentes.Acredito que é nos detalhes que a vida acontece.

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