Jig a Bobo — Lovecraft Country
Jig a Bobo — Lovecraft Country

Elaborando

julho 10, 2023
2 mins de leitura

Eu preciso de dialogo. Conversar colocas as coisas em perspectiva pra mim, me ajuda a me organizar, me ajuda a continuar. Travei uma batalha dolorida com meus sentimentos diante das conversas que se negam a acontecer. Um silenciamento que eu tenho experimentado com uma certa frequência ultimamente.

Ser silenciada por pessoas brancas não me surpreende, me afeta obviamente, mas não causa horror. Eu sou rodeada por pessoas negras e me revira o estomago quando esse cercear vem destas pessoas.

Tenho assistido gente querida me tratar pelo estereótipo da Saphire. Me imitam como se eu não falasse e sim gritasse, como se não houvesse nenhum sentimento além de raiva. Fazem questão de contar histórias sobre mim que reforçam este estereótipo dando contorno de comédia e permitindo que o interlocutor possa criar sua própria imagem da mulher negra raivosa, ciumenta, agressiva.

Você já viu isso em filmes e quadros de humor, certeza: a mulher irritada, que bate e grita com o marido, é ela que manda na porra toda e que faz “”””o papel do homem””””, ela tá sempre puta da vida, nunca sorri e vai te mandar tomar no cu quando você menos perceber.

Percebi que toda vez que sou magoada e acho por bem falar sobre o que me magoou eu me torno uma vilã de novela. Como se me sentir como me sinto fosse uma ofensa que precisa ser combatida com muita ironia e violência ou muito pior do que isso, minhas questões merecem o silêncio. Sempre disfarçado de “vamos conversar num momento melhor” “vamos evitar a treta” “pelo WhatsApp é muito ruim conversar”. E nessa de esperar o momento em que não vai existir essa falsa raiva o assunto some em aleatoriedades. Uma planta ali, uma academia, uma comedia romântica, um meme bobo.

As pessoas não perdem tempo me conhecendo, elas já sabem tudo sobre mim. E é impressionante como tudo é errado.

Dizem que meus relacionamentos foram horríveis, mas eu acho que todos foram bem sucedidos e com um motivo bem claro pro fim. Dizem que eu sou ciumenta e atribuem ao ciúme uma possessividade que eu desconheço e que nunca pratiquei com ninguém (e sim, ciúme e possessividade são coisas diferentes), abrem essa vulnerabilidade em mesas de bar pra entretenimento geral, afinal não tenho alma e não sinto nada. Recentemente descobri que é esperado de mim que no momento que algo me faça mal eu atravesse a pessoa e brigue por mim, coisa que jamais fiz e jamais faria, eu sempre me calei e deixei passar, eu vivo a ilusão de que um dia alguém vai me tratar com sensibilidade. Eu realmente não sei de onde vem essa imagem, na verdade eu sei, é dessa herança racista permitida pra quem não precisa pensar sobre estereótipos racistas em suas relações. Gente que se sente objetificada e violentada, mas acredita que não violenta absolutamente ninguém e portanto não precisa prestar atenção nas suas atitudes.

Eu não entendo porque quem tem uma visão tão horrível da gente vai ficando, falando mal pelas costas e se ressentindo. Não entendo, mas gosto das pessoas e preferi acreditar que elas apenas não entendem, mas que é possível mudar.

Eu fico só na torcida pra que elas queira mudar, e que a minha amizade valha a pena o esforço de repensar essas situações.

Maria Rita Casagrande

Escrevo para não enlouquecer, sobre coisas que já me enlouqueceram.

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Escrevo sobre a vida e coleciono pequenos fragmentos: livros, comidas, afetos, viagens internas e externas. Gosto de transformar obsessões passageiras em palavras permanentes.Acredito que é nos detalhes que a vida acontece.

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