Me sinto num vídeo-trend de pessoas que se desapaixonam, mas um pouco invertido. Ao invés da voz melancólica dizendo “assista meu namorado se desapaixonando por mim” no meu vídeo-existência a minha própria voz anuncia num misto de melancolia e descrença “me assista desapaixonando”.
Se eu disser que gosto da sensação eu vou estar mentindo. Talvez porque eu não tinha percebido o tamanho do meu amor, talvez porque era um sentimento tão confortável, certeiro e bom que eu não achei que fosse passar. Era como uma espécie de casa, uma que eu tinha escolhido construir e morar. Me dava de alguma forma uma espécie de orgulho.
Não é segredo a dimensão da minha admiração por ti. Sempre gostei de coisas que você era, bem mais do que as coisas que você fazia. Tua ambição sempre me pegou, não poderia existir nada tão bonito. Cada plano, cada sonho, cada fresta de possibilidade. Eu gostava tanto de ouvir. Seus olhos brilhavam cada vez que você contava para onde você estava indo ou exibia alguma coisa que tinha criado. Eu gostava tanto de ver.
Escondido no fundo das minhas gavetas, acho que sempre morou a certeza de que era você, sempre foi você e sempre seria você. Tudo estava certo, só o tempo um pouco desencaixado. Viveríamos muitas coisas, por muitos anos, mas o fim seria eu te perguntando: Casa comigo?
Eu gostava de te ver vivendo, eu observava de longe seus erros e acertos tentando interferir o mínimo possível, e muitas vezes interferindo muito mais do que eu gostaria.
No meu coração você sempre foi imenso, não só no ensaio da pessoa que poderia ser, mas por tudo aquilo que já é. Meu coração parava cada vez que você se comportava como alguém minúsculo, e eu lutava pra mudar o que quer que estivesse acontecendo. Eu sempre quis que você conseguisse se ver da maneira como eu te via.
Mas faz algumas semanas que minha construção de você vem desmoronando. Eu me sinto tentando segurar as paredes disto com as duas mãos enquanto os tijolos seguem caindo ao meu redor e eu não sei o que fazer com tudo isso.
Te olho e já não tem mais espaço pra admiração, e o amor que existia esta virando uma outra coisa, talvez aquilo que deveria ter sido desde o principio.
Sinto que você esperou demais por um amor que não veio, cansou da espera, desistiu e aceitou qualquer coisa. E tem me deixado constrangida te olhar nos olhos e conviver com você porque meus olhos que antes eram de admiração agora refletem uma espécie de fracasso, só que não o meu, o seu. Tenho tido vergonha de pensar isso sobre você, e tento manter a conversa, a piada, a risada, os nossos dias, mas eu não te admiro mais.
Eu sempre achei que esse dia poderia chegar com uma das nossas brigas, mas jamais por eu achar que você fez uma escolha de construção de futuro que não condiz com tudo o que eu já ouvi você falar sobre amor.
Eu te quero feliz, próspero e vitorioso em tudo aquilo que escolher fazer, eu podendo participar ou não. Mas esta é a primeira vez que eu não acredito que as suas decisões possam te tornar maior do que você é, ou sequer possam te deixar mais feliz. E a vida não deveria ser sobre o certo e o errado, e sim sobre aquilo que nos faz feliz.
Você conseguiu me colocar no vale da estranheza e eu ainda não consegui me localizar nisso tudo, mas ontem eu entendi que que preferia mil vezes sentir ciúmes de você do que sentir pena. Era mais fácil de lidar.

