Não é a primeira vez que me encontro neste lugar, um espaço virtual transformado em campo de batalha. As armas não são físicas, mas as feridas são reais. Desta vez, a investida veio disfarçada de gentileza, um “oi, eu posso falar com você?” casual no Instagram que rapidamente se transformou em um dilúvio de mensagens sexuais, fotos íntimas e uma cobrança sufocante por atenção. O bloqueio foi inevitável, mas o pesadelo não acabou. Perfis falsos surgiram, como fantasmas digitais, perpetuando o assédio.
Ele é um fetichista, um assediador, igual a ele existem milhares e não estamos falando o suficiente sobre isso. O chamo de fetichista e não entendam aqui o fetiche como algo ruim, o fetiche é saudável havendo consentimento de todas as partes envolvidas desde que sejam adultas e racionais. Mas todos nós sabemos que existe um cruzar de linha. Existem predadores e não estamos falando sobre como eles se escondem e se multiplicam na internet. O caso é que sabemos quando somos tratados com fetichização e isso acontece com uma desconcertante naturalização com mulheres gordas e com mulheres negras.
Isso sempre existiu , principalmente em comunidades online. Nos idos de 2003, no bom e velho Orkut, existiam grupos que reuniam pessoas gordas pra falar sobre suas questões, debater vida pratica ou se apoiar umas nas outras. Nesses grupos, onde amor e afeto (e como tudo era permeado de violência) eram boa parte do assunto, não raro existia a abertura para pessoas com o argumento de “adoro uma gordinha/o”. As vezes era real, mas em sua maioria era a abertura de porta para a crueldade e o abuso disfarçado de gentileza e padrões sociais.
Ao longo dos anos essa “caçada” só migrou de lugar, facebook, o Instagram, os apps de relacionamento. Usando “Love Bombing” — uma tática ardilosa de afogar a vítima em atenção, afeto e elogios, criando uma ilusão de romance intenso para, mais tarde, manipular e controlar o predador vai atrás de quem puder cair em sua conversa, quanto mais vulnerável a pessoa, melhor. É a isca açucarada que esconde o anzol da manipulação. como isca para fisgar suas presas. Eles se aproveitam de vulnerabilidades que já foram escritas e ditas publicamente por várias de nós, acreditando que nossos corpos são objetos à sua disposição.
Sabemos como são e onde estão os “adoro gordinhas”, “Não sou cachorro pra gostar de osso” , os “travequeiros”, os “Zé trancinha”. E eu sei que se você me entendeu aqui, você muito provavelmente é uma mulher gorda, uma mulher trans, uma travesti ou uma mulher negra. talvez você seja mais do que uma destas coisas.
A cada mensagem indesejada, a cada foto íntima enviada sem consentimento, a cada perfil falso criado para nos perseguir, a injustiça se torna mais palpável. Por que nós, somos alvos tão frequentes desse tipo de violência? Por que ainda somos reduzidas a meros objetos de fetiche com tanta tranquilidade? Por que a gordofobia é tão insidiosa, tão enraizada em nossas interações online? Por que quando contamos o absurdo não parece mais tão absurdo como deveria ser?
Já perdi a conta de quantas vezes fui assediada, e a cada nova experiência, me sinto perdida em um mar de emoções conflitantes. Não é puritanismo, mas a sexualização de conversas casuais me causa um profundo mal-estar. É como se meu corpo fosse um ímã para coisificação, como se minha existência online fosse um convite aberto para a objetificação. Eu não tenho o direito a gostar de mim, eu só posso estar disponível ao outro.
Eu sempre me impressiono como as vezes estamos conversando com pessoas que vivem, convivem e interagem com outras na internet e fora dela, e vemos como os tratamentos são diferentes. Quem são as pessoas que merecem o date, as que vão ganhar um café da manhã pós transa, aquelas que são a oitava maravilha do mundo admiradas publicamente com vários comentários e que são apenas o like ou o foguinho tímido nas redes sociais, sabemos o que significa o “não estou pronto pra um relacionamento” e o “estou focado apenas em mim”, e com que tipo de pessoa isso muda num piscar de olhos e o preparo chega. Sabemos bem quem são as pessoas que nunca vão nos ver a luz do dia.
Todas nós sabemos.
Também sabemos que a carência afetiva faz com que algumas de nós acobertem determinadas figuras. Que nos faz maternar, cuidar, pensar que é só com a gente, tolerar, ser a psicóloga e o apoio emocional gratuito e até brigar para defender pessoas assim, pela migalha de afeto que vai receber depois de uma demonstração de proteção e lealdade. Alimentamos o mal que vai nos consumir.
Acredito que a vergonha também se faz presente, e me pergunto se é por isso que tantas mulheres gordas se calam diante do assédio. Será que estamos tão dessensibilizadas a essa forma de violência sexual que já não sabemos mais como reagir? Ou será que o silêncio é uma resposta à certeza de que ninguém se importa com o que acontece com nossos corpos?
“Pelo menos alguém te quer”, dizem alguns, como se o assédio fosse um elogio. Mas não se trata de ser desejada, e sim de ser fetichizada, de ter seu corpo reduzido a um objeto de consumo. É sobre a gordofobia que se esconde por trás da máscara do afeto, que transforma o desejo em violência. E falo sobre o corpo gordo especificamente e não o negro, porque a situação que eu vivi está ligada ao ser gorda, tanto que olhando o perfil inicial criado pelo fetichista, encontrei várias mulheres que conheço e que não conheço, com características muito parecidas com as minhas, como uma álbum de figurinhas temático.
Já mostrei em um vídeo o que acontece quando uma mulher gorda entra em um aplicativo de relacionamento deixando claro que é gorda: a enxurrada de propostas nojentas, agressivas, que nos fazem questionar nosso próprio valor. Experiências desse tipo sempre me bagunçam, me deixam sem saber como me comportar, me fazem desconfiar do afeto das pessoas. Mas o silêncio me faz ainda mais mal.
O que se passa conosco, enquanto sociedade, para estarmos tão insensíveis uns aos outros? Na busca por migalhas de afeto, parece que vale tudo, desde adultos assediando adolescentes até acobertar amigos agressores. Como esses homens mantêm seus empregos, como as piadas misóginas continuam, como o fetiche em mulheres gordas é apenas mais uma faceta da gordofobia?
São perguntas que estão na minha mente desde a ultima sexta feira, sem respostas fáceis. Mas o silêncio não é mais uma opção. E eu queria abrir a conversa. É preciso falar sobre o assédio online, sobre a gordofobia, sobre fetichização, sobre coisificação, sobre tudo que nos fere e nos silencia. Falar entre nós, falar com seriedade e não como se pedíssemos por favor que alguém interceda e compreenda. É preciso questionar, desafiar, e acima de tudo, resistir sim, mas é preciso saber que não é um caso isolado, é um padrão e precisamos esgotar aquilo que o alimenta.

