Pássaro

abril 15, 2020
1 min de leitura

Como eu te dou as asas que eu queria ter?

Te criei para ser livre, livre das amarras de um mundo cruel demais pra quem ousa viver. Olho pra você fechado nestes 60 metros quadrados e me parece um desperdício de vida. Você já se conformou e tenta espremer sua imensidão no espaço que a gente tenta tornar tão nosso. Queria ter cuidado melhor do mundo para poder permitir que você corresse por aí livre.

Logo quando eu fui vencida pelo seu tamanho todo e tinha permitido que você fosse só seu, vivesse a liberdade da rua, e saísse debaixo das minhas asas, o mundo virou de cabeça pra baixo.

Ainda gosto de quando você dorme na minha cama e eu posso cheirar seu cabelo. Você já não cabe mais no meu abraço e nem na cama, mas ainda sim é como se a gente voltasse praquele apartamento apertado e sem móveis, em que a gente dormia numa caminha de solteiro e eu tinha medo te abraçar forte demais e te sufocar.

Você me diz que 2020 já acabou com toda tranquilidade do mundo, desliza pelo piso de porcelanato de meia , faz dancinhas inesperadas, solta gargalhadas sem fim com os amigos na internet, conhece gente nova, escreve um roteiro, grava e edita vídeos, faz musica, dá abraços, estuda, troca o dia pela noite. Você está crescendo diante dos meus olhos e todo dia que sai da cama parece que ganhou mais altura.

Que grande barato é ver você tão seu, e que no seu crescer de vez em quando você olhe pra mim. Você está deixando de ser um pedacinho meu pra ser todo você. Que bom que você não me fechou do lado de fora.

Nossa relação é toda construída com base em verdade e companheirismo, e quando vejo tudo aquilo que a gente tem vivido junto é como se eu tivesse feito a coisa certa esse tempo todo, mesmo no meio da minha bagunça.

Não sei como te dar agora as asas que eu gostaria de ter. As minhas quebradas estão curando agora, e eu ainda não sei o que eu vou fazer com elas.

Espero que quando isso passar os céus das tardes permaneçam laranja e rosa, que eu esteja curada e você esteja forte o suficiente pra gente se acompanhar em grandes voos.

Maria Rita Casagrande

Escrevo para não enlouquecer, sobre coisas que já me enlouqueceram.

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Escrevo sobre a vida e coleciono pequenos fragmentos: livros, comidas, afetos, viagens internas e externas. Gosto de transformar obsessões passageiras em palavras permanentes.Acredito que é nos detalhes que a vida acontece.

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